Posteado por: Felipe | septiembre 10, 2009

Escolas para o século XXI

Os jovens deverão saber como criar uma civilização que funcione com energia solar, conserve a biodiversidade, proteja  solos e florestas, desenvolva empreendimentos locais sustentáveis e repare os estragos infligidos à Terra.

Para oferecermos essa educação ecológica, precisamos transformar nossas escolas e universidades.

Na sociedade industrial, a grande maioria  considera o sistema educacional, do primário ao doutorado, caro demais, maçante e pouco  eficaz. Acham que este precisa de uma reforma radical, mas não  sabem como proceder. Uns afirmam que a falha se deve à falta  de verbas para laboratórios, bibliotecas, equipamentos, salários  e novas instalações — ponto de vista defendido,  obviamente, por educadores profissionais. Do outro lado, estão  aqueles que defendem o abandono de grande parte do sistema atual,  para criar um sistema de escolas organizadas como empresas.

Ambos concordam, porém, quanto aos objetivos básicos  da educação: primeiro, equipar a sociedade com uma  força de trabalho de “categoria mundial” para  competir com vantagem na economia global e segundo, fornecer a cada  indivíduo os meios para progredir ao máximo.

No entanto, existem motivos melhores para repensar a educação,  ligados às questões de sobrevivência humana que  dominarão o mundo no século XXI. A geração  que hoje está estudando terá que fazer aquilo que nossa  geração não conseguiu ou não quis fazer: estabilizar a população mundial, fixar e depois reduzir  a emissão de gases que ameaçam mudar o clima — proteger  a diversidade biológica, reverter a destruição  de florestas e conservar o solo, cuja erosão diária  atinge milhões de toneladas.

As gerações futuras precisam aprender a utilizar melhor  a energia e os materiais disponíveis. Precisam aprender a  usar a energia solar sob todas as suas formas. Precisam eliminar  a poluição e o desperdício. Precisam aprender  a administrar recursos renováveis. Precisam iniciar a imensa  tarefa de restaurar, da melhor forma, os danos causados à Terra nos últimos 200 anos de industrialização. E  tudo isso precisa ser feito, enfrentando as iniqüidades sociais  e raciais. Nenhuma geração teve que encarar tamanho  programa  de trabalho. Continuamos, porém, a educar nossos  jovens como se não houvesse nenhuma  emergência  planetária. Mas, a crise que enfrentamos é principalmente  uma crise da mente, da percepção e dos valores — portanto,  um grande desafio para as instituições que formam mentes,  percepções e valores. Um desafio educacional.

Niño camino a la Escuela

Niño camino a la Escuela

Continuando com a mesma educação, que nos permitiu industrializar a Terra, somente vamos piorar a situação. Isso precisa ser dito com ênfase, porque a crise ambiental não é provocada principalmente por pessoas ignorantes, sem escolaridade. É provocada por pessoas de boa formação que, segundo Gary Snyder, “ganham rios de dinheiro, vestem-se impecavelmente, formam-se nas melhores universidades, apreciam  pratos finos e lêem bons livros, enquanto orquestram investimentos  e leis que arruínam o mundo”. São homens e mulheres com diplomas universitários, educados para pensar  que dominar a natureza é nosso direito legítimo. Não  estou querendo ir contra o ensino, mas falar a favor do tipo de ensino  que prepara as pessoas para um estilo de vida apropriado a um planeta  com biosfera sujeita às leis da ecologia e da termodinâmica.

As habilidades, aptidões e atitudes necessárias para  industrializar a Terra não são necessariamente as mesmas  que vamos precisar para curar a Terra ou para estabelecer economias  e comunidades sustentáveis. Os grandes desafios ecológicos  requerem uma alteração das matérias, do sistema  e dos objetivos do ensino, em todos os níveis. Entretanto,  o historiador Jaroslav Pelikan, da Universidade de Yale, tem dúvidas  quanto à capacidade da universidade para enfrentar esta crise,  que não só é ecológica e tecnológica, como também educacional e moral.

Para construir uma ordem mundial sustentável, precisamos desmontar  o frágil andaime de idéias, filosofias e ideologias  que constituem o currículo escolar moderno. Isso requer cinco medidas.

Primeiro, precisamos desenvolver verdades mais abrangentes  e ecológicas. Os arquitetos da visão atual que temos  do mundo, principalmente Galileu e Descartes, consideravam tudo o  que podia ser pesado, medido e somado, mais verdadeiro do que aquilo  que não pode ser quantificado. Em outras palavras, se não  podia ser quantificado, não contava. A filosofia cartesiana  era cheia de tropeços ecológicos, que os discípulos  de Descartes desenvolveram ao grau máximo. Sua filosofia separava  o homem do mundo natural, despia a natureza do seu valor intrínseco  e segregava a mente do corpo.

Se quisermos salvar espécies e ambientes, precisamos de um  conceito mais amplo da ciência e de um raciocínio mais  abrangente, que une o conhecimento empírico com as emoções  que nos fazem amar e, às vezes, lutar.

Descartes e seus discípulos estavam errados: não se  pode separar os sentimentos do conhecimento, o objeto do sujeito;  não podemos separar a mente ou o corpo do contexto ecológico e emocional.

Ciência sem amor não pode oferecer um motivo para apreciar o pôr do sol, nem pode oferecer um motivo objetivo para valorizar a vida. Esses motivos precisam vir de fontes mais profundas.

Segundo, precisamos desafiar a presunção contida no  currículo oculto, que entende que o domínio da natureza pelo  homem é bom; que uma economia de mercado crescente é natural;  que todo conhecimento, independente de suas conseqüências, é igualmente  valioso e que o progresso material é nosso direito. Nos tornamos incapazes  de resistir à sedução da tecnologia, do conforto e do  ganho imediato. Sob esse ponto de vista, a crise ecológica é questão  de discernir entre vida ou morte, benção ou maldição, e de aprender a escolher a vida.

Terceiro, precisamos reconhecer o fato de que o currículo moderno  ensina muito sobre individualidade e direitos, mas pouco sobre cidadania e  responsabilidade. A emergência ecológica somente pode ser resolvida  quando um número suficiente de pessoas adquirir uma idéia mais  ampla do que significa ser cidadão. Esse conhecimento precisa ser cuidadosamente  adquirido em todos os níveis de ensino.

Não se trata apenas de um problema político e social.  Hoje, deveríamos ver o quanto dependemos da comunidade mais  ampla de seres vivos. Nossa linguagem política não sugere esta dependência. A palavra “patriotismo”,  por exemplo, é destituída de conteúdo ecológico. É preciso  que ela venha a significar o uso feito da terra, florestas, ar, água  e vida selvagem. Abusar dos recursos naturais, desgastar o solo,  destruir a diversidade natural, desperdiçar, tomar mais do  que o necessário ou deixar de repor o que foi usado — tudo  isso precisa, no futuro, ser considerado falta de patriotismo. É preciso que “política” volte a significar, como disse Vaclav Havel, “servir a comunidade e servir aqueles que  virão depois de nós”.

Quarto, precisamos questionar o conceito amplamente  difundido de que nosso futuro é de constante evolução tecnológica  e que isso é bom. A fé na tecnologia permeia todo o currículo,  aceitando cegamente a noção de progresso. Entretanto, esse progresso  não é um caminho escolhido de forma consciente, mas uma crendice  tecnológica que avança sem controle através da história.  Essas crendices são incorporadas aos métodos pedagógicos,  sem questionamento. Conhecer a linguagem do computador, por exemplo, transformou-se  em meta nacional — incentivada em geral pelos vendedores. Esse fundamentalismo  tecnológico precisa ser questionado. As mudanças tecnológicas  estão nos levando para onde queremos? Qual é o efeito da tecnologia  sobre nossa imaginação, em questões sociais, éticas e políticas? E qual é o seu efeito ecológico?

Ecoescuela

Ecoescuela

George Orwell tinha prevenido que o “fim lógico  do progresso tecnológico é reduzir o ser humano a algo  parecido com um cérebro encerrado em uma garrafa”.  O pesadelo de Orwell está se transformando em realidade, graças  também às pesquisas realizadas nas melhores universidades — pesquisas  contrárias às nossas reais necessidades. Nossas necessidades  são necessidades do espírito, mas nossa imaginação  e criatividade concentram-se na matéria.

Um quinto desafio desponta no horizonte, solapando a mais  antiga e confortável das premissas: que educação  somente pode ter lugar em instituições “educacionais”.  Escolas e universidades são caras, lentas, com pouca imaginação,  oprimidas pelo peso da tradição e da autocongratulação.  Oferecem currículos com disciplinas que pouco correspondem à realidade.  A educação ecológica visa provocar uma mudança  na ênfase, na lealdade, no afeto e nas convicções,  para preencher a lacuna existente entre o homem e seu meio ambiente.

Trata-se menos de remendos no status quo, do que de um rompimento  com antigos conceitos, com a camisa-de-força dos currículos  e até com o confinamento em salas de aula e prédios  escolares.

Educação ecológica exige, antes de mais nada,  a reintegração da experiência no ensino, porque  a experiência é um ingrediente indispensável  ao raciocínio. Uma boa maneira para obter essa reintegração é utilizar  o campus universitário como laboratório para o estudo  de alimentos, energia, materiais, água e saneamento. A pesquisa  do impacto ecológico de determinada instituição  transforma questões abstratas complexas em dimensões compreensíveis — em escala que permite a busca de soluções.  Isto representa um antídoto para o desespero sentido pelos  alunos, quando compreendem os problemas, mas são incapazes  de efetuar mudanças. As universidades precisam observar atentamente  o potencial econômico da região, para descobrir como  o dinheiro pode ser gasto e investido no local, para ajudar a mover  o mundo em direção mais sustentável. Por exemplo,  alunos de diversas escolas, que pesquisavam a compra de alimentos,  ajudaram a trocar fornecedores distantes por outros mais próximos,  permitindo reduzir custos, melhorar a qualidade e impulsionar a  economia local.

Precisamos ir além. O velho currículo foi elaborado  com o objetivo de ampliar ao máximo o domínio do homem  sobre a Terra. O novo currículo precisa ser organizado para  desenvolver conhecimento ecológico e habilidade prática,  essenciais para enquadrar as coisas em um mundo de micróbios,  plantas, animais. O modelo ecológico vai cuidadosamente entrosar  os objetivos humanos com o mundo natural, para orientar os objetivos  humanos.O planejamento ecológico requer capacidade de olhar  além das disciplinas, para ver o mundo no contexto mais amplo;  requer ampliação do conhecimento ecológico — saber  como a natureza trabalha — através de todo o currículo.  Significa  ensinar aos jovens os fundamentos daquilo que precisam saber para  ampliar o horizonte, para criar uma civilização movida  a luz solar; que utiliza energia e riquezas com grande eficiência;  que preserva o solo, as florestas e a diversidade biológica,  que desenvolve empresas locais e regionais sustentáveis; e  que repara os danos infligidos à Terra durante toda a era industrial.

Mas, precisamos ir ainda mais longe. Chegou o momento de voltar  a unir as disciplinas. Para tanto, sugiro que dediquemos parte  do currículo,  em todos os níveis, ao estudo de um aspecto ou lugar do nosso  meio ambiente — um rio, montanha, vale, lago, solo, pântano, determinado animal, pássaros, o céu, a orla marítima  ou até mesmo uma pequena cidade. Um curso sobre o rio local  poderia começar com uma viagem rio abaixo, para colocar os alunos frente ao objeto do estudo. Depois poderiam escolher diferentes  aspectos do rio para estudar: sua evolução, como foi  povoado, a ecologia, os peixes e a vida aquática, os efeitos  da poluição, as leis que governam o seu uso, e assim  por diante. O curso termina com outra viagem, enquanto os alunos  descrevem o que aprenderam.

Rios, montanhas, lagos são reais; disciplinas são abstratas.  O que é real estimula todos os sentidos, não só o  intelecto. O conhecimento curricular normalmente é isolado  da realidade e muitas vezes é difícil relacioná-lo  a realidades ecológicas concretas. Os alunos precisam aprender  a apreciar, respeitar e, quem sabe, até mesmo amar uma parte  específica do mundo, antes de adquirir o poder implícito  no conhecimento puramente abstrato. Se o jovem compreende como o  mundo funciona em um sistema integrado e por que esse conhecimento é importante  para seus objetivos e seu estilo de vida, ele vai saber também como conseguir uma economia sustentável.

Defensores do currículo convencional acreditam que o domínio  de uma disciplina, oferecendo conhecimento especializado, é um  fim em si. Aconselho revertermos essa prioridade para colocar o conhecimento  dentro de um contexto ecológico específico. Desta forma,  vamos engajar todos os sentidos dos alunos, não apenas sua  inteligência, para que se apaixonem pelo mundo natural. Podemos  também ensinar as limitações do conhecimento  a respeito de determinado aspecto da natureza — e este é o  começo da sabedoria ecológica.

Educação ecológica requer também mudanças  no funcionamento e nas prioridades de escolas e universidades, assim  como no seu modo de operar. Por exemplo, na pesquisa mencionada,  os alunos descobriram maneiras de reduzir custos, melhorar serviços,  diminuir o impacto sobre o meio ambiente e ajudar a economia local.  O princípio é simples: aquelas instituições  que pretendem induzir os jovens a tornarem-se adultos responsáveis  devem elas próprias mostrar responsabilidade pelo mundo que  os jovens herdarão. Instituições de ensino muitas  vezes medem seu desempenho pelo investimento por aluno ou pela porcentagem  de docentes com Ph. D.. Do ponto de vista ecológico, temos  outro conjunto de indicadores da qualidade:

1. Emissão de dióxido de carbono por aluno;
2. Porcentagem de materiais reciclados;
3. Porcentagem de material reciclado adquirido;
4. Uso de produtos tóxicos;
5. Porcentagem de energia renovável consumida;
6. Porcentagem de dejetos orgânicos transformados em adubo;
7. Quantidade de água usada por aluno;
8. Porcentagem de alimentos servidos na cantina, que foram cultivados  organicamente;
9. Carne consumida por aluno.

Pensamos que o ensino é feito em edifícios, mas achamos  que a construção e operação desses prédios  nada têm a ver com educação. Isto é um  erro. O currículo oculto na arquitetura acadêmica constitui  uma espécie de pedagogia cristalizada, cheia de preconceitos  relacionados ao poder, à  maneira como as pessoas aprendem,  como se relacionam com o mundo natural e como se relacionam uns com  os outros. Existem, porém, oportunidades educacionais: o projeto  ecológico abrange o paisagismo, a engenharia solar, a seleção  dos materiais de construção, a escolha de materiais  de consumo duráveis e recicláveis e a eliminação  do lixo e dos dejetos.

Além de reduzir o impacto sobre o meio ambiente, as instituições  de ensino poderiam usar suas verbas para ajudar a economia local  e regional. A decisão de comprar alimentos, cultivados organicamente,  de produtores locais, pode servir de incentivo para que os agricultores  mudem para métodos de produção ecologicamente  sustentáveis. O mesmo princípio aplica-se a quase todos  os produtos e serviços adquiridos. As instituições  de ensino são conhecidas e respeitadas.

Todos vão comentar,  se uma escola ou universidade comunica que está levando o  futuro a sério e, portanto, vai reduzir o impacto sobre  o meio ambiente e, ao mesmo tempo, ajudar a economia local e regional.

Por fim, algumas palavras sobre o objetivo da educação  ecológica. Na maioria das vezes, ouvimos que o ensino é útil  porque aumenta as possibilidades de promoção e de ganhar  a vida. Preparamos os jovens para aquilo que os orientadores chamam  de “carreira”. Raramente mencionamos aquilo que era chamado  de “vocação”. Sob uma perspectiva mais ampla, isto é tolice. Os alunos deveriam ser estimulados,  antes de mais nada, a descobrirem sua vocação: aquilo  que lhes desperta paixão, que realmente gostariam de fazer.  A vocação indica o que queremos fazer de nossa vida.  A carreira é um plano friamente elaborado para obter segurança e um pouco de “prazer”. A carreira quase sempre revela-se profundamente insatisfatória, não importando a renda. A vocação não é algo calculado, mas o resultado de uma conversa interior sobre aquilo que importa na vida e a contribuição que queremos dar a este mundo. A vocação começa como intuição. É arriscada. É mais inspirada do que premeditada. A carreira é um teste de QI; a vocação é um teste não somente da inteligência, mas também de sabedoria, caráter, lealdade e força moral. A pessoa sempre pode achar uma carreira dentro de sua vocação. É muito mais difícil encontrar, ao longo da vida, uma vocação na carreira. Quando a pessoa opta pela segurança, a sorte está lançada. Em última análise, a carreira é falta de imaginação e sinal de que achamos o mundo pobre em possibilidades.

Precisamos encorajar os jovens a encontrar em sua vocação um trabalho bom e necessário. O trabalho melhor e mais necessário no mundo atual procura, de mil maneiras, sintonizar os valores, as instituições, as expectativas e o comportamento humano com o respeito à Terra em que vivemos. Esta é hoje a tarefa da educação.
_____

David Orr
Fonte: Resurgence nº 160, outubro  de 1993, publicado no site www.taps.org.br
David Orr é professor titular de pedagogia na Faculdade  de Oberlin, Ohio, EUA.

by Ecocentro IPEC on agosto 27th, 2009

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